Ao longo da história os
modelos de relações amorosas foram evoluindo e sofrendo alterações adaptando-se
aos conjuntos de crenças e necessidades do Homem de cada época.
Neste momento de profundas
transformações na História da humanidade, em que cada um de nós é convidado a
despertar para uma dimensão transpessoal, da verdade que sentimos dentro e que
ainda buscamos fora, tentando construir pontes que unam ambos os mundos, somos
chamados a rever uma série de normas, crenças e formas de pensar herdadas
dos nossos pais que já não se coadunam com o nosso sentir.
Desta forma lançamo-nos numa
redescoberta interna, que nos convida a uma recriação constante, partindo de
quem pensamos que somos, para chegarmos a quem somos verdadeiramente.
O modelo de amor romântico, baseado
no encontro mágico com a tal pessoa especial, a nossa cara-metade, na qual
buscávamos tudo o que nos faltava, projetando os nossos sonhos e carências, com
a qual desejávamos estabelecer um vínculo de intimidade emocional eterna
mantendo, contudo, a ilusão de continuar a ser independentes, não funciona
mais. Não funcionará neste formato, em que nos temos despojado, de forma
inconsciente, de qualquer tipo de responsabilidade pelos nossos vazios, pelas
nossas carências, exigindo que o outro nos preencha e ainda por cima seja ou se
comporte da forma que idealizámos, cobrando-lhe as nossas frustrações,
tornando-nos prisioneiros dele, de nós mesmos e, em simultâneo, tornando-nos
carrascos de ambos.
Nesta desconstrução do velho
paradigma e construção do novo, vemo-nos perante um grande desafio
relacional, em que a partir do que revemos no outro, observando-nos de
forma consciente em cada interação, percebemos que as nossas carências, as
nossas projeções e as nossas ilusões nos levam a uma descoberta de quem
somos, a uma descoberta do outro (que também somos nós) e consequentemente, a
um crescimento e maturação da relação que estabelecemos com ele.
Estamos a ser convidados a
olhar para dentro de nós e a descobrir o amor que sempre fomos na essência e do
qual nos afastámos por vivermos na ilusão da separação, por acreditarmos que
estamos separados do outro e que o amor vem de outra pessoa, buscando-o, seja
nos nossos companheiros, pais, filhos, amigos, irmãos, seja quem for, ao invés
de partilharmos o amor que temos.
Quando descobrimos o amor
dentro de nós, como um estado do ser, já não nos importamos que o outro mude,
que as coisas apareçam ou desapareçam no tempo. Ao sermos conscientes do amor
em nós, podemos vivê-lo nas suas variadas formas, porque tudo é expressão desse
amor que somos, o que nos conduz à liberdade.
Ao deixarmos de procurar o
imaginário, fantasiando, desconfiando e manipulando o outro de variadíssimas
formas, ainda que de forma inconsciente, começamos o caminho do amor,
transformando todas as relações afetivas.
O desenvolvimento de uma
relação afetiva, seja ela amorosa ou não, é um projeto de construção a dois,
uma parceria, uma eterna dança de independência, intercambio e partilha onde o
vinculo afetivo é pautado pela capacidade de entrega de cada um ao outro e pelo
seu nível de auto-aceitação. Só desta forma, podemos verdadeiramente
compreender o outro e aceitá-lo tal qual é.
Tudo começa em nós. Os
relacionamentos são espelhos de nós mesmos e aquilo que atraímos reflete sempre
as nossas crenças e as qualidades Luz e Sombra que temos.
Reconhecemos que todos
gostamos de experimentar o sentimento de que somos importantes para alguém que
nos quer e apoia, porque nos dá segurança e estabilidade. De qualquer forma,
estarmos conscientes de que embora nos sintamos fração, somos inteiros, e
que o outro, com o qual estabelecemos uma ligação, também se sente fração, mas
é inteiro, levar-nos-á à diferença entre o amor com minúsculas e o AMOR com
maiúsculas e a verdadeira essência da liberdade.
A vida convida-nos a
estabelecer vínculos de intimidade emocional como dois inteiros, e não como
duas metades, partilhando o amor que temos, dividindo multiplicando.